Associação dos
Arautos do Evangelho
Associação da Sociedade Clerical Virgo Flos Carmeli
•APRESENTAÇÃO
A Sociedade Clerical Virgo Flos Carmeli é constituída por membros dos Arautos do Evangelho com vocação ao sacerdócio, após dezenas de anos de vida comunitária, estudos e muita dedicação, com o fim de melhor empreender a atividade evangelizadora. A Sociedade nasce como expressão do carisma da Associação Arautos do Evangelho, com a especificidade da vocação sacerdotal, manifestando a vontade de atuar em comunhão de métodos e metas com a mencionada associação, e empenhando-se particularmente em que os fiéis que se sentem atraídos por este carisma tenham uma assistência ministerial, sobretudo, os que vivem em comunidade.
Em seu medalhão estão contidos os três principais símbolos dos Arautos: as chaves de São Pedro (simbolizando o Papa), Maria Santíssima e a Santíssima Eucaristia. À cintura, uma corrente de ferro representa a fortíssima ligação de cada Arauto com Maria, ao ponto de se chamarem "Escravos de Jesus através de Maria". Pendente desta corrente está o Rosário, frequentemente recomendado por Maria em suas aparições.
Os membros dos arautos, tanto homens quanto mulheres, usam uniforme de estilo militar medieval, com túnica bege, ornada com o desenho da cruz de Santiago, botas de cano longo e um rosário na cintura.[
Arautos do Evangelho possuem somente uma igreja que é a principal, na Diocese de Roma que será nossa sede oficial, que será dedica em Memória de Nossa Senhora de Fátima.
A associação Dos Arautos do Evangelho, com a especificidade da vocação sacerdotal, manifestando a vontade de atuar em comunhão de métodos e metas com a mencionada associação, e empenhando-se particularmente em que os fiéis que se sentem atraídos por este carisma tenham uma assistência ministerial, sobretudo no que a Santa Mãe Igreja crê e professa e devem ser dotados de fé católica e apostólica de direito pontifício. Caros padres de diáconos que ingressa nessa ordem não terão a completa "cláusura" mas a seme cláusura que deverão ter de comprir os deveres empregados à cada um de você dentro da ordem também em suas (Arqui)diocese trabalhem como for ordenado pelo seu bispo lembre de suas promessas que fizeram no dia da Ordenação, deves também respeito e obediência pelo seu superior da Ordem. Lembre-se que deve ter sempre com sigo o carisma de um Arautos não se esquecendo que se reveste da armadura de Deus para enfrentar as siladas do demônio.
•RESUMO
O presente artigo visa apresentar os aspectos teológicos fundamentais do carisma dos Arautos do Evangelho. Em vista disto, serão analisadas as principais características de sua espiritualidade e finalidade, a fim de atingir-se uma visão abrangente do papel deste novomovimento no atual contexto da Igreja Católica.Palavras-chave: Carisma, espiritualidade, Arautos do Evangelho.
Arautos do Evangelho Carísma,espiritualidade e finalidade.
Na Igreja santa de Deus, Esposa de Cristo “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível”, reflete-se, à maneira de espelho, o mistério do Verbo Encarnado. Com efei-
to, em Cristo Jesus, Deus e Homem verdadeiro, as duas naturezas, divina e humana, unem-se hipostaticamente numa só Pessoa Divina. Analogamente, encontram-se na única Igreja fundada por Cristo, o elemento humano
—social e visível , e o carismático, pelo qual “resplandece cheia de dons do Espírito Santo”. Algo semelhante se dá ao se considerar a Igreja enquanto unidade e diversidade. No Catecismo da Igreja Católica explica-se “o mistério sagrado da
Igreja Una” em função da sua origem divina, tendo ela por “modelo e supremo princípio a unidade de um só Deus na Trindade de pessoas”. “Contu-
do prossegue o texto —desde a origem, esta Igreja Una se apresenta com uma grande diversidade, que provém ao mesmo tempo da variedade dos dons
de Deus e da multiplicidade das pessoas que os recebem”. “Há diversidade de dons, mas um só Espírito”, ensina São Paulo aos Coríntios. Com efeito, ante a abundância das manifestações carismáticas 1entre os fiéis, o Apóstolo orienta os discípulos a considerar a unidade da Igre-
ja, o “Corpo de Cristo”, 11 pois a variedade dons de sabedoria, de palavra de ciência, de realizar milagres, de discernimento dos espíritos, e tantos
outros é concedida pelo mesmo Deus. Com efeito, os carismas sempre existiram na Igreja enquanto manifestação de sua unidade e diversidade. Na Teologia referem-se eles a um dom gratuito de Deus a um indivíduo em favor de outros em benefício da Igreja, pois “é dada afirma São Paulo a manifestação do Espírito para proveito comum”. Assim, o Apóstolo utiliza diversas vezes o termo“carisma” e quando o emprega no plural (χαρίσματα), faz menção a diferentes dons concedidos por Deus “que opera tudo em todos” dentro de uma comunida-
de. Ora, por meio desses carismas, o Povo de Deus participa do múnus profético de Cristo, através do Espírito Santo que santifica e conduz a Igreja, não
apenas beneficiando-se com as riquezas doadas pela magnificência de Deus, mas assumindo as responsabilidades inerentes a essa participação em benefício da Igreja. Tocará, evidentemente, ao critério superior das autoridades competentes,
julgar a autenticidade desses dons carismáticos e ordenar seu exercício, provando-os e assimilando aqueles que sejam bons, pois o próprio Espírito os
submeteu à autoridade dos Apóstolos. Por isso,João Paulo II assim afirma:
“É fundamental [...] que cada movimento se submeta ao discernimento da autoridade eclesiástica competente. Por essa razão, nenhum carisma dispensa da reverência e da submissão aos Pastores da Igreja”. Cumpridas estas condições, os carismas devem ser acolhidos com reconhecimento e generosidade por quem os recebe, e por todos os membros do Corpo de Cristo. E, se é verdade ser indispensável discernir a autenticidade
divina desses dons e carismas, tarefa que compete aos pastores, a eles cabe também especialmente zelar para não se extinguir a ação do Espírito, procurando que todos cooperem em sua diversidade e complementaridade.Tais carismas, que manifestam a presença atuante do Espírito Santo, não constituem as funções eclesiásticas particulares segundo George e Grelot e podem encontrar-se em qualquer fiel batizado, seja qual for seuministério ou função na Igreja, com o objetivo de dar o poder e a graça para
corresponder à própria vocação e para ser útil à comunidade, a fim de que
seja edificado o Corpo de Cristo.
Procurar-se-á, a seguir, explicitar a essência do carisma concedido pelo
Espírito Santo a um novo movimento: os Arautos do Evangelho, primeira
associação aprovada pela Santa Sé no terceiro milênio. Como tema correla-
to, versar-se-á sobre a sua finalidade e espiritualidade, ou seja, no que consis-
te, considerando o panorama católico dos dias atuais, essa novidade suscitada
pelo Espírito Santo, o Qual é sempre insondável, inesgotável e, tantas vezes
surpreendente em suas divinas ações: “o Espírito sopra onde quer”.
1. UM NOVO CARISMA A SERVIÇO DA IGREJA
1.1 UMA VISÃO DO UNIVERSO:A BELEZA E A PERFEIÇÃO
Os carismas são dons concedidos pelo Paráclito “ordenados à edificação da Igreja, ao bem comum dos homens e às necessidades do mundo”. No caso do carisma dos Arautos do Evangelho, parte ele de uma peculiar visão simbólica de Deus e da ordem do universo, incluindo desde os seres materiais
até os espirituais, em que se discerne em tudo algum reflexo do Criador, ressaltados os aspectos da beleza. E, como consequência, nos atos da vida,no seu modo de ser e agir, procuram os Arautos a perfeição através da pulcritude, para cumprir o mandamento de Nosso Senhor: “Sede perfeitos, como vosso Pai do Céu é perfeito”.
Como explicou o Concílio, este ideal de requinte não deve ser objeto de equívoco vendo-se nele um caminho extraordinário, possível apenas a algum ‘gênio’ da santidade. [...] É hora de propor de novo a todos, com convicção, esta ‘medida alta’ da vida cristã ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direção.
A glória de Deus é o fim último de todas as coisas. E compete, sobretudo, aos seres inteligentes,mediante o reto uso de seu livre-arbítrio, oferecer um louvor voluntário a seu Senhor, correspondendo à sua bondade. A beleza divina, que os Arautos do Evangelho procuram espelhar em seu pensamento, atitudes e apostolado, permite levar ao mundoum admirável testemunho e exemplo desta santidade.Em sua infinita munificência criadora,Deus poderia ter realizado todas e cada uma das coisas no seu mais alto grau de perfeição.Não procedeu Ele desta maneira, talvezporque desejasse o concurso humano para embelezamento da obra da criação. Nesse sentido,cantava Dante serem as obras de arte netas de Deus. Competiria, portanto, a uma Civilização segundo o espírito do Evangelho tornar a terra tanto quanto possível semelhante ao Céu. Ora, o Livro do Gênesis nos apresenta o relato da triste queda de Adão e Eva no Paraíso, com a qual perderam o mais íntimo, estreito e direto contato que tinham com o Senhor. Daí por diante prevaleceu na criatura decaída a tendência de fixar seu olhar e suas cogitações mais na terra que no Céu. Face a essa debilidade, o carisma dos Arautos do Evangelho visa proporcionar à sociedade todos os meios para que, sustentada pela graça, volte àquela impostação primeira através da consideração do belo. Restaura-se, assim, na medida em que o permitem as contingências destevale de lágrimas, o relacionamento paradisíaco outrora perdido.Este dom, concedido à instituição, revela-se tão autêntico quanto eficaz ao
se desabrochar em jovens vocacionados, nos quais desde logo se nota enorme apetência para realizar suas orações, trabalhos e demais atividades, visando refletir do melhor modo a beleza que é Deus.Levando em consideração que o pulchrum é, na ordem criada, o esplendor de todos os transcendentais reunidos, sua importância é fundamental,uma vez que através de suas manifestações o homem mais facilmente chega a Deus.
1.2 GRANDEZA - MAGNANIMIDADE
Como visto, o pulchrum é um excelente meio de se atingir a perfeição, segundo o carisma dos Arautosdo Evangelho. Considerando que a beleza atinge a plenitude quando ela encontra, abraça e oscula a grandeza, faz parte de tal carisma apresentar os aspectos afins a esta virtude, não só em Deus, mas em toda a obra da criação. Ao se discorrer sobre a grandeza, a fim de tornar compreensível este carisma específico além de vê-la como uma virtude, será ela focalizada enquanto um modo de ser das virtudes; tal como se passa com o pedal do piano que, ao ser acionado, amplia o som de todas as notas, assim age a grandeza sobre todas as virtudes tonificando as cores e acentuando as características delas.Segundo a linguagem teológica, a virtude correspondente ao que aqui se
denomina de grandeza, é a magnanimidade. Auxiliar da fortaleza, costumaela ser designada também por nobreza de caráter. É uma virtude que aperfeiçoa as demais, levando o homem a praticálas de forma esplêndida ou eminente; é o ornato e o esplendor das demais virtudes,tornandoas fulgurantes. Em outros termos, pode-se afirmar ser ela o oposto da mediocridade. Nas narrações dos Evangelhos, resplandece em sumo grau na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Divino Mestre não formula um só dito que não seja sublime, não toma uma só atitude que não seja esplendorosa; Ele é, em tudo, majestoso e afabilíssimo, a própria substância magnanimidade.
Fr. Antonio Royo Marín assim a define: “É uma virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra, em todo gênero de
virtudes”. Dir-se-ia, talvez, ser esta virtude contrária à humildade, ou ao menos incompatível com ela. Entretanto, na realidade são dependentes uma da outra, assim como da confiança, como bem explica Rodríguez na introdução ao Tratado da Fortaleza, da Suma Teológica de São Tomás. Sua explanação descreve com muito acerto o perfil ideal de como deve ser um Arauto do Evangelho:
O magnânimo é verdadeiramente humilde no exercício das obras grandes, e tanto mais magnânimo quanto mais humilde, sobretudo na ordem das virtudes infusas. E é porque assim como o magnânimo aspira retamente à grandeza e ao que é digno de honra, confiando nos dons e forças recebidas de Deus, ao ser humilde tem consciência de suas deficiências e incapacidades e teme não fazer o bem que deve, não se exalta, mas se confia à misericórdia e ao poder de Deus [...] Esta conjunção de magnanimidade e humildade está bem patente no Magnificat da Santíssima Virgem: ‘Exulta
de júbilo Meu espírito em Deus meu Salvador, porque olhou a humildade de sua serva; porque fez em mim maravilhas o Poderoso’ (Lc 1, 47-49).
Ramírez sintetiza as características do magnânimo apontadas por São Tomás neste tratado: ‘Possui uma alma verdadeiramente grande. Por isso
não se satisfaz com as bagatelas humanas. Não é interesseiro, mas dadivoso; não é vingativo, mas clemente; não é invejoso, mas caritativo; não é
falador, mas tendente ao taciturno, embora afável; não é precipitado, mas calmo e ordenado, cunctator; não é melancólico, mas discretamente alegre. Não se queixa de nada, nem de ninguém. É um verdadeiro cavalheiro, como
o podia ser o Cid Campeador’.
Se tal é a magnanimidade, sua consequência chama-se magnificência, que o Doutor Angélico apresenta de maneira elucidativa: À magnificência cabe não apenas fazer grande segundo o sentido próprio do verbo fazer, mas também tender no espírito a fazer grande, como explica Aristóteles no IV livro sobre a Ética. É por isso que Cícero define a magnificência nos seguintes termos: ‘concepção e gestão de grandes e sublimes coisas, com uma intenção de espírito vasta e brilhante’. O termo concepção se refere à intenção interior, e gestão, à execução. Como a magnanimidade
visa algo de grande em qualquer matéria, a magnificência visa a grandeza na obra a ser produzida. [...] E a magnificência faz principalmente obras grandes dirigidas para a
honra de Deus. E é por isso que Aristóteles no IV livro sobre a Ética acrescenta: ‘Os gastos mais louváveis são aqueles que acompanham os sacrifí-
cios oferecidos a Deus, e são, aliás, os que o magnificente mais pratica’. É por esta razão que a magnificência se une à santidade, uma vez que seu
efeito se ordena principalmente para a religião, ou para a santidade. Sobretudo o culto divino — a mais alta atividade humana — demanda grandes projetos, na perspectiva dos Arautos do Evangelho. Para que ele se revista de esplendor e pulcritude, é preciso, ou pelo menos é muito conveniente, dispor na medida do possível de templos grandiosos, ornados com beleza. O mesmo se diga de tudo quanto toca às alfaias litúrgicas, desde os objetos mais simples e discretos até os mais visíveis. Na sua vida diária, os Arautos comprovam o quanto é através do ambiente criado em torno do altar que a
alma mais facilmente compreende o sagrado da liturgia e se eleva à contemplação de Deus.
A experiência evangelizadora de décadas, sobretudo entre os jovens, acabou por confirmar a eficaz capacidade de atração dessa virtude. Frequentemente generosos por natureza, tendem eles a entregar-se aos grandes ideais, a realizar atos de renúncia para alcançar nobres objetivos. Se o ideal de santidade não é apresentado com grandeza, exigindo opções categóricas, os jovens
não se entusiasmam, a ele não aderem e nem o seguem. Talvez aqui se encontre a razão do fracasso de algumas iniciativas evangelizadoras nos dias atuais: o fato de apresentarem objetivos medianos, ou até medíocres, que não atraiam os melhores. Pelo contrário, as metas devem ser ousadas, para de alguma maneira estar na proporção do ideal de santidade a que os Arautos se propõem. Eis um dos pontos salientes na atuação dos Arautos, em seus projetos de evangelização.
1.3 SENSO DE HIERARQUIA
Esse arraigado amor à perfeição, que leva à magnanimidade, propicia também o fortalecimento do senso de hierarquia, de relevante papel no carisma dos Arautos. Assim sendo, torna-se conveniente discorrer sobre a substância
desse senso. Com efeito, a hierarquização harmônica dos seres apresenta um dégradé
na criação, de que as almas têm necessidade para mais facilmente chegar a Deus. Nessa perspectiva, a consideração do pulchrum no universo pressupõe
haver uma gradação na perfeição dos seres, manifestando a variedade na unidade, e a unidade na variedade.
Ora, para tal, necessárias são a multiplicidade e a diversidade das criaturas, como afirma São Tomás de Aquino: Como uma única criatura não seria capaz de representá-la [a bondade divina] suficientemente, Ele produziu criaturas múltiplas e diversas, a fim de que o que falta a uma para representar a bondade divina seja suprido por outra. [...] Consequentemente, o universo inteiro participa da bondade divina
e a representa mais perfeitamente que uma criatura, qualquer que seja ela.
Além de múltiplas e diversas, devem as criaturas também estar hierarquizadas, cada qual representando um grau de participação do Infinito. Divino. É o que ensina o mesmo Santo Doutor na Suma contra os Gentios: “Por conseguinte, não deveria faltar o bem da ordem na obra de Deus. Mas este bem não poderia existir, sem a diversidade e desigualdade das criaturas”. Vê-se assim o papel da multiplicidade, da diversidade e da hierarquia para Deus Se tornar cognoscível ao homem nesta forma de contemplação do Criador nas criaturas, característica do carisma dos Arautos que pervade todas as suas atividades, pensamento e modos de ser. Essa é a razão pela qual o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira considerava importante para a formação religiosa dos fiéis, especialmente no tocante ao Primeiro Mandamento, a compreensão do papel das justas e harmônicas desigualdades no universo: Um universo de criaturas iguais seria um mundo em que se teria eliminado em toda a medida do possível a semelhança entre criaturas e Criador. Odiar, em princípio, toda e qualquer desigualdade é, pois, colocar-se metafisicamente contra os melhores elementos de semelhança entre o Criador e a criação, é odiar a Deus. [...] Um dos pontos muito importantes [...] é, pois, ensinar o amor à desigualdade vista no plano metafísico, ao princípio de autoridade, e também à lei moral e à pureza; porque exatamente o orgulho, a revolta e a impureza são os fatores que mais impulsionam os homens na senda da Revolução.
1.4 O CARISMA DOS ARAUTOS FACE AO CINTROTO HISTORICO
O carisma dos Arautos face ao contexto histórico
Esse carisma, original em tantos aspectos e com um tipo humano tão peculiar, provavelmente foi suscitado pelo Espírito Santo na presente quadra histórica para atuar num mundo que vai perdendo o senso da presença de Deus e, concomitantemente ou talvez por causa disso, também o senso da beleza.É preciso, sem embargo, levar em conta que esse carisma teria sua razão de ser em qualquer época, ainda que o mundo não estivesse na decadência em que se encontra. São desdobramentos das perfeições divinas que o Espírito Santo suscita ao longo dos séculos, em vista da maior glória de Deus, e não simplesmente em função de algum mal. “Alios egovidi ventos, alias prospexi animo procellas”,63 poderia a Igreja dizer sobranceira em meio às tormen-
tas do mundo de hoje. Nesse sentido, se a crise da sociedade entrou como um elemento na explici-
tação do carisma dos Arautos do Evangelho, o propósito de oferecer-lhe uma réplica não representa sua essência. Da mesma forma que diminuiria muito a missão de São Domingos de Gusmão quem o apresentasse como mero
antialbigense, ou Santo Inácio de Loyola e Santa Teresa de Jesus como simples antiprotestantes, o mesmo se dá, na devida proporção, com os Arautos
do Evangelho. O carisma destes representa, na realidade, o desabrochar de uma nova faceta do espírito católico, a qual, sob diversos aspectos, é inédita na história da Igreja, e suplanta de muito os males atuais ao se voltar para os séculos futuros, ad maiorem Dei gloriam!Com efeito, foi logo no início de seu percurso vocacional, quando mal transpusera os umbrais da infância, que o fundador dos Arautos do Evangelho teve seus primeiros confrontos com as manifestações de rejeição a Deus. Em sua jovem idade, causaram-lhe profunda impressão as reações de aversão ao espírito da Igreja e de ateísmo que encontrava em alguns próximos, sur-gindo desse entrechoque um fator determinante para o despontar de sua voca-
ção. Aspirava então por encontrar inoocência no mundo: “Deve existir alguémque seja idealista, uma pessoa que não busque unicamente os próprios interesses!” — refletia ele. Era a graça trabalhando sua alma, com a certeza da concretização, mais cedo ou mais tarde, de seus mais nobres anelos. E a espera não foi vã. Aí estão os fatos a comprová-lo, de sobejo. No entanto, foi a partir de seu ingresso no grupo dirigido pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que a gravidade da crise do mundo contemporâneo tomou contornos definidos no espírito do fundador dos Arautos do Evangelho. Graças ao incentivo recebido, alargou seus conhecimentos teológicos e doutriná-
rios, e tomou contato com as análises feitas por seu mestre, à luz da fé, sobre o avanço galopante do caos hodierno.A visualização desse líder católico sobre a decadência do homem ocidental
e cristão não poderia deixar de influenciar o carisma dos Arautos do Evangelho, o qual germinou e se desenvolveu diante da perspectiva de uma crise universal que abarca o homem inteiro e, consequentemente, todos os campos
da atividade humana. Suas raízes se encontram “nos problemas de alma mais profundos, de onde se estendem para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades”.
1.5 ESPIRITUALIDADE: A EUCARISTIA, MARIA E O PAPA
Uma vez consideradas as características do carisma e do tipo humano dos Arautos do Evangelho, passa-se agora a tratar de sua espiritualidade.As devoções mais marcantes desta via religiosa são a Eucaristia, Maria e o Papa, as quais formam um conjunto indispensável para completar o quadro do carisma. São elas uma herança espiritual da formação recebida do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ao longo de quarenta anos de estreita colaboração e
convívio praticamente diário. Por isso, transcreve-se a seguir o trecho de um artigo desse pensador católico, no qual, com a clareza incisiva que lhe é tão característica, ressalta a importância da trilogia:Há para a Igreja três condições de florescimento tão essenciais, que se avantajam sobre todas as outras. Delas já tenho falado muito. Nunca, porém, será suficiente insistir. Antes de tudo, está a piedade eucarística. Nosso Senhor presente no San-tíssimo Sacramento é o Sol da Igreja. Dele nos vêm todas as graças. Mas estas graças têm de passar por Maria. Pois é Ela a Medianeira universal, por.uem vamos a Jesus, e por Quem Jesus vem a nós. A devoção marial inten-
sa, esclarecida, filial, é pois a segunda condição para o florescimento da virtude. Se Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento está presente, mas não
nos fala, sua voz se faz ouvir para nós através do Sumo Pontífice. De onde a docilidade ao Sucessor de São Pedro é o fruto próprio e lógico da devoção à Sagrada Eucaristia e a Nossa Senhora. Quando, pois, estas três devoções florescem, cedo ou tarde a Igreja triunfa. E, a contrario sensu, quando elas estão em declínio, cedo ou tarde a civilização cristã decai. Nos estatutos dos Arautos do Evangelho ficaram consagradas estas três devoções, que devem estar gravadas na alma e no coração de cada membro da Associação por força de seu exemplo de vida, marcaram a fundo os costumes do Eremo
de São Bento. Com frequência, lá costumava ir ele ao fim da tarde, após ter concluído suas orações e antes de dar início ao período vespertino de traba-
lho, a fim de participar do Banquete Eucarístico juntamente com os eremitas que ali residiam.
Não havia quem não ficasse vivamente edificado ao vê-lo comungar e fazer a ação de graças, que nunca durava menos de dez minutos, após rece-
ber Jesus Eucarístico. A recepção diária da Eucaristia era-lhe um dom inestimável, conforme suas próprias palavras, poucos anos antes de falecer: “Uma pessoa chegar a idade avançada, tendo comungado todos os dias, é uma alegria enorme! Mas enorme!” Seu exemplo levou a que os membros do Eremo de São Bento, embora todos leigos, também abraçassem essa importante prática de piedade, a qual sempre tinha uma característica nota mariana, e por isso foi incluída no Ordo .
1.6 UM CARISMA COM ACENTUADA NOTA MARIAL
Além da devoção Eucarística e da fidelidade ao Papado, quem toma contato com os Arautos, mesmo superficialmente, logo discerne no carisma a peculiar e acentuadíssima nota marial, que provém da vinculação espiritual com a Mãe de Deus propugnada por São Luís Maria Grignion de Montfort em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem:Esta devoção consiste, portanto, em entregar-se inteiramente à Santíssima
Virgem, a fim de, por Ela, pertencer inteiramente a Jesus Cristo. É preciso dar-Lhe 1º- nosso corpo com todos os seus membros e sentidos; 2º- nossa alma com todas as suas potências; 3º- nossos bens exteriores, que chamamos de fortuna, presentes e futuros; 4º- nossos bens interiores e espirituais,
que são nossos méritos, nossas virtudes e nossas boas obras passadas, presentes e futuras. Numa palavra, tudo que temos na ordem da natureza e na ordem da graça, e tudo que, no porvir, poderemos ter na ordem da natureza, da graça e da glória, e isto sem nenhuma reserva, sem a reserva sequer de um real, de um cabelo, da menor boa ação, para toda a eternidade, sem pretender nem esperar a mínima recompensa de sua oferenda e de seu servi-
ço, a não ser a honra de pertencer a Jesus Cristo por Ela e n’Ela, mesmo que esta amável Senhora não fosse, como é sempre, a mais liberal e reconheci-
da das criaturas. Mais adiante, o grande santo mariano explana os frutos que tal devoção
produz na alma do escravo de amor, sendo o principal deles a sua conformação a Jesus Cristo:
Notai, se vos apraz, que eu digo que os santos são moldados em Maria. [...] Santo Agostinho chama a Santíssima Virgem “forma Dei”, o molde de
Deus. “Si formam Dei te appellem, digna exsistis”. O molde próprio para formar e moldar deuses. Aquele que é lançado no molde divino fica em bre-
ve formado e moldado em Jesus Cristo, e Jesus Cristo nele. [...]Mas lembrai-vos que só se lança no molde o que está fundido e líquido, isto
é, que é mister destruir e fundir em vós o velho Adão, para que venha a ser o novo em Maria. Embora São Luís Grignion, ao tratar da escravidão de amor, se refira a uma relação espiritual com Maria sem qualquer compromisso de votos públicos, a leitura do Tratado e a prática da escravidão de amor foram fatores determinantes para que o fundador dos Arautos, juntamente com alguns de seus companheiros de ideal, optassem pela vida comunitária. Para destruir o velho Adão, segundo as palavras do mesmo santo, o auxílio de um guia se fazia indispensável, e ninguém melhor indicado para essa tarefa que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.Enquanto em outras fundações, em geral, a vida comunitária nasce com vistas à finalidade própria do instituto, nos Arautos ela se estabeleceu para viverem com maior intensidade a consagração como escravos de amor e se
unirem mais intimamente a Jesus pelas mãos de Maria Santíssima, confiados à orientação firme e experimentada de um mestre espiritual.
Terão contribuído também para essa opção de vida, em alguma medida, as menções feitas por São Luís Grignion a uma futura instituição ou congrega-
ção destinada a combater o espírito do mundo e divulgar a devoção a Maria: Um esquadrão de bravos e destemidos soldados de Jesus e de Maria, de ambos os sexos, para combater o mundo, o demônio e a natureza corrompi-
da, nos tempos perigosos que virão, e como ainda não houve. Desde o começo, todos os que faziam parte dessa experiência de vida
comunitária sentiam grande consonância com as palavras um tanto misteriosas da Oração Abrasada, na qual São Luís Grignion trata dos Apóstolos
dos Últimos Tempos. Nela, refere-se ele a uma congregação de escravos de Maria, cujas características parecem se aproximar às do carisma dos Arautos:Que Vos peço eu? [...] Liberos: escravos de vosso amor e de vossa vontade, homens segundo vosso Coração que sem vontade própria que os macule e os faça parar, executem todas as vossas vontades e lancem por terra todos os vossos inimigos, quais novos Davis, com o cajado da Cruz e a funda do santíssimo Rosário nas mãos: “In baculo Cruce et in virga Virgine”. [...] Liberos: almas sempre à vossa mão, sempre prontas a obedecer-Vos, à voz de seus superiores, como Samuel: ‘Praesto sum’. Sempre prontos a correr e a tudo sofrer por Vós e convosco, como os Apóstolos: ‘Eamus et moriamur cum illo’.Liberos: verdadeiros servos da Santíssima Virgem, que, como outros tantos São Domingos, vão por toda parte, com o facho lúcido e ardente do Santo Evangelho na boca, e na mão o santo Rosário, ladrar, como cães fiéis, contra os lobos que s s so buscam estraçalhar o rebanho de Jesus Cristo; que vão ardendo como fogos, e iluminando como sóis as trevas deste mundo. Os fatores acima mencionados, ao serem postos em prática, acabaram por ajudar a definir os traços essenciais do carisma dos Arautos, levando-os a incluir nos estatutos a espiritualidade montfortiana:“Os membros da Associação realizam essa finalidade vivendo a consagração a Jesus Cristo por meio de Maria, como uma renovação constante das promessas do Batismo, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort (RM 48)”. Entre os frutos da escravidão a Maria, São Luís aponta o de uma grande confiança em Deus e em sua Santa Mãe: “A Santíssima Virgem vos encherá
de grande confiança em Deus e n’Ela”. O Arauto do Evangelho aspira viver por inteiro a espiritualidade montfortiana, renovando diariamente sua consagração à Santíssima Virgem, procurando a como modelo, e fazendo tudo com Maria e em Maria. A fórmula dessa entrega tem por título “Consagração de si mesmo a Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, pelas mãos de Maria”.
1.7 INDISPENSÁVEL ROSÁRIO
O Rosário, uma das mais importantes manifestações de piedade mariana, ocupa lugar central nas práticas devocionais dos Arautos do Evangelho. Foi quando o grande São Domingos de Gusmão, em 1214, pedia o auxílio divino em meio à situação por que passava a Igreja com a heresia cátara, que a Mãe de Deus lhe revelou a devoção do Santo Rosário por meio do qual foi finalmente superada a grave crise. Abria-se, assim, luminosa via de salvação aos homens. Manifestando a predileção pelos filhos dominicanos, Maria
Santíssima socorre, em 1464, o Beato Alano de la Roche, então acometido por terrível provação, dando-lhe a conhecer as quinze promessas aos devotos do Rosário. Em seguida, tornou-se Alano o grande apóstolo dessa devoção mariana.Compêndio do Evangelho, o Rosário leva a meditar nos principais episódios da vida do Senhor. Trata-se propriamente de uma oração evangélica, centrada sobre o mistério da Encarnação redentora, conforme ressaltou o Papa Paulo VI. É a contemplação dos mistérios da Encarnação e da Redenção através dos olhos da Virgem Maria. Assim,percorrer com Ela as cenas do Rosário é como frequentar a ‘escola’ de Maria para ler Cristo, penetrar nos seus segredos, compreender a sua mensagem. Esta escola, a de Maria, é ainda mais eficaz quando se pensa que Ela a dá obtendo-nos os dons do Espírito Santo com abundância e, ao mes-
mo tempo, propondo-nos o exemplo daquela ‘peregrinação da Fé’, na qual é mestra inigualável. Cada membro associado dos Arautos do Evangelho na sua vida de comunidade, não somente faz da Missa o centro de seu dia e reza a Liturgia das
Horas, como também tem o compromisso de recitar o Rosário completo, ou seja, os mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos. É convicção de todos os Arautos que, sem essa devoção mariana, a solidificação e expansão da obra teria sido muito mais difícil, para não dizer impossível. E o próprio caráter profundamente mariano da espiritualidade
dos Arautos do Evangelho exige esse amor ao Rosário.
1.8 ENTRANADA DEVOÇÃO AO PAPADO
Intimamente relacionada com a devoção Eucarística e marial estava, para o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, a veneração ao Papa, pois é este o doce Cristo na terra. Como escritor, não deixou de manifestar seus sentimentos de filial e entranhado devotamento ao Pastor dos Pastores em numerosas ocasiões:“Quem afirma servir a Deus não afirma com isto que deseja servi-Lo como Ele quer ser servido, isto é, com a Igreja, pela Igreja e na Igreja. [Muitos] pretendem servir a Deus, [...] mas querem servi-Lo a seu modo. Não basta que sirvamos a Deus, segundo nós achamos que Ele deve ser servido. É preciso que O sirvamos como a Igreja, seu porta-voz infalível, quer que Ele seja servido. E, assim, em uma época em que se usa e abusa de tudo, inclusive do Santo Nome de Deus, é melhor precisar os termos, e dizermos a verdade inteira: queremos servir o Papa e a Igreja, pois que este é o único modo por que devemos servir à causa de Deus”. Os vivos sentimentos e a firme disposição do Prof. Corrêa de Oliveira de manter-se sempre na submissa e reverente obediência à autoridade do Papa, acatando com filial obséquio de sua inteligência todos seus ensinamentos,
mesmo os do Magistério ordinário, foram num crescendo ininterrupto durante toda a sua longa vida. Essa sua postura de espírito teve um relevante papel na formação espiritual do fundador dos Arautos.Pode-se aqui citar, a modo de exemplo, um artigo de sua autoria publicado no jornal de maior tiragem de Brasil durante o pontificado de Paulo VI:
Não é com meu entusiasmo dos tempos de jovem, que eu me coloco hoje ante a Santa Sé. É com um entusiasmo ainda maior, e muito maior. Pois à
medida que vou vivendo, pensando e ganhando experiência, vou compreen-dendo e amando mais o Papa e o Papado.Lembro-me ainda das aulas de catecismo em que me explicaram o Papa-
do, sua instituição divina, seus poderes, sua missão. Meu coração de menino (eu tinha então nove anos) se encheu de admiração, de enlevo, de entu-
siasmo: eu encontrara o ideal a que me dedicaria por toda a vida. De lá para cá, o amor a esse ideal não tem senão crescido. E peço aqui a Nossa Senho-
ra que o faça crescer mais e mais, até o último alento. Quero que o derradeiro ato de meu intelecto seja um ato de Fé no Papado. Que meu último ato de amor seja um ato de amor ao Papado. Pois assim morrerei na paz dos eleitos, bem unido a Maria minha Mãe, e por Ela a Jesus, meu Deus, meu Rei e
meu Redentor boníssimo.E este amor ao Papado não é em mim um amor abstrato. Ele inclui um amor especial à pessoa sacrossanta do Papa, seja ele o de ontem, como o de hoje ou o de amanhã. Amor de veneração. Amor de obediência. [...]
Foi o que me ensinaram nas aulas de Catecismo. Foi o que li nos tratados que estudei. Assim penso, assim sinto, assim sou. E de coração inteiro. Se em seus escritos transbordava esse grande amor à Igreja, em suas conferências ou palestras era muito mais sensível o ardor desse sentimento, que ele procurava transmitir a seus seguidores e colaboradores mais próximos, criando em torno de si um ambiente de entranhado devotamento à Esposa Mística de Cristo representada por seus Pastores, os Bispos, em união com o
Santo Padre. Foi essa veneração à pessoa do Sumo Pontífice que levou o fundador dos Arautos do Evangelho, em certo momento, a querer se vincular de um modo mais especial à Santa Sé, pedindo a aprovação pontifícia da instituição. Não se tratava tão só de formalizar o status canônico de uma associação já existente de fato, por meio de uma medida jurídica administrativa, mas de estrei-
tar o laço espiritual com a Cátedra de Pedro, para inserir-se mais plenamente no mistério da comunhão eclesial. A partir daí, inúmeras novas graças passaram a ser derramadas sobre o movimento, assim unido ao Vigário de Cristo.
A propósito, podem ser elucidativos os comentários do Prof. Corrêa de Oliveira a respeito da necessidade de cada fiel estar ligado a seus pastores, uma vez que Cristo estabeleceu com eles um vínculo indissolúvel: Nosso Senhor Jesus Cristo e a hierarquia, têm uma união indissolúvel. E,
para estar unido a Nosso Senhor Jesus Cristo, é indispensável estar unido à Hierarquia.
Porque a Hierarquia é a continuadora de Jesus Cristo, e é porque ela tem a missão de Jesus Cristo de ensinar, que ela ensina. E nós devemos acredi-
tar no ensinamento de Jesus Cristo, enquanto transmitido pela Hierarquia. Existe mais um dado, que é o seguinte: como toda a vida da graça vem pelo fato de nós estarmos unidos à Igreja, e como a união com a Igreja vem do fato de nós estarmos unidos à Hierarquia, é pelo fato de nós aceitarmos esse ensino, enquanto lecionado pela Hierarquia, que nós nos inserimos na árvore da Igreja e recebemos a graça.De maneira que, se nós não estivéssemos colados na Igreja, vivendo da sua
seiva, a circulação da graça cessaria em nós. E nós secaríamos, completamente, falhos de graça. Porque a graça que possa haver em mim, eu a rece-
bo da minha união e da minha submissão à Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana e, portanto, às autoridades constituídas nela. Como ficou dito mais acima, esses ensinamentos ver-se-iam futuramente
refletidos no modo de o fundador conduzir os Arautos do Evangelho, procurando a aprovação da Sagrada Hierarquia e do Papa.O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira levara esta atitude de obediência ao
extremo de declarar-se, sob o ponto de vistaintelectual, escravo da Santa Sé. Tal era sua adesão aos ensinamentos do Papa e dos Bispos, instituídos como mestres da Igreja pelo próprio Cristo. Em matéria doutrinária afirmava serem
seus ensinamentos eco do Magistério católico.
1.9 FINALIDADE: CONSECRATIO MUNDI
Se o carisma dos Arautos do Evangelho provém de uma visão simbólica do universo, ressaltado o pulchrum e originando um determinado tipo humano com específica espiritualidade, cabe aqui tratar de sua finalidade. “Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, pedem os homens na oração perfeita, há dois mil anos. Almejam os Arautos que esse anelo se torne realidade, para que se dê toda a glória extrínseca devida ao Criador. Trata-se da consecratio mundi (a sacralização do mundo) à qual o Papa João Paulo II se refere, ao dizer que:
A tarefa prioritária da nova evangelização, que compete a todo o Povo de Deus, descortina aos olhos do leigo cristão imensos horizontes — alguns
dos quais ainda por serem explorados — docompromisso no século, no mundo da cultura, da arte e do espetáculo, da investigação científica, do trabalho, dos meios de comunicação, da política, da economia, etc., e pede-lhes criatividade na busca de modalidades cada vez mais eficazes para que estes
ambientes encontrem em Jesus Cristo a plenitude do seu significado. 9Eis aqui alguns fundamentos que mostram porque o carisma dos Arautos
visa aplicar-se a todos os campos da atividade humana.Uma vez que Deus criou o mundo para manifestar e comunicar sua glória, 95
não teria sentido que toda a Criação glorificasse a Deus, refletindo suas perfeições, exceto a sociedade temporal, uma de suas mais admiráveis obras. Em
algo essa glória ficaria diminuída. Sem embargo, o aperfeiçoamento da esfera temporal foi confiado ao próprio homem, ao contrário do restante do uni-
verso inanimado que saiu das mãos de Deus e se mantém dentro das regras traçadas pelo Criador, glorificando-O dessa forma. Em se tratando de um ser inteligente e, portanto, livre, participa o homem da obra criadora por disposi-
ção divina. A Deus apraz fazer com que as criaturas não só tenham parte em sua Bondade, mas que a comuniquem umas às outras. Para que a esfera temporal, porém, dê glória a Deus, precisa estar constituída de acordo com os desígnios divinos, fundamentando-se na lei natural que é compendiada no Decálogo. A sociedade temporal deve, pois, procurar em Deus o seu modelo perfeito. Com a Encarnação do Verbo, tornando-Se Deus
visível ao homem em Cristo Jesus, é n’Ele que a humanidade é chamada a fixar o olhar, a fim de encontrar o seu divino Arquétipo no Qual se deve inspirar para aperfeiçoar todas as suas obras.
Vê-se, assim, que a glória de Deus não está centrada exclusivamente na salvação individual do maior número de almas. Se, numa hipótese absurda, todas se salvassem mas a sociedade temporal não fosse conforme ao plano de Deus, a glória extrínseca d’Ele ficaria apequenada. Fazendo parte do
desígnio divino que o homem viva em sociedade, é evidente que também esta tem de refletir no seu conjunto as perfeições divinas, dando glória ao Criador inclusive no âmbito temporal, como na esfera espiritual o faz a Igreja. Ambas
as sociedades têm, cada uma em seu âmbito, a mesma finalidade: a salvação
das almas. A intenção de atuar na sacralização das realidades temporais está expressa nos estatutos dos Arautos do Evangelho, no que diz respeito à finalidade: Além disso, a Associação tem como fim a participação ativa, [...] na missão salvífica da Igreja, através do apostolado, atuando em prol da evangelização, da santificação e da animação cristã das realidades temporais [...] os membros da Associação devem ter em conta que é na índole secular que se situa a sua especificidade, razão pela qual devem realizar seu serviço eclesial testemunhando e tornando presente, perante os outros estados de vida, o significado das realidades terrenas e temporais no desígnio salvífico de
Deus (cf. ChL 55).97Como todas as atividades dos Arautos do Evangelho, a consecratio mundi,
finalidade imediata de seu carisma, ao promover condições mais favoráveis à santificação das almas na ordem temporal, tem como meta última a máxima glória de Deus.
2. PAPEL NUCLEAR DA LITURGIA NA VIDA DO MOVIMENTO DOS ARAUTOS DO EVANGELHO
Sendo a vida interior a alma de todo apostolado, a condição do êxito de qualquer ação evangelizadora está na contínua e crescente santificação dos
apóstolos, conforme nos ensina Dom Chautard. Precioso instrumento para tal escopo entre os Arautos do Evangelho foi o auspicioso desabrochar do ramo sacerdotal em seu meio. Através dele, esta grande família passou não só a dispor de maior assistência espiritual, como também a beneficiar-se de uma intensificação da vida sacramental de seus membros, o que de si já constitui fator de primordial importância para lograr a almejada consecratio mundi. O papel insubstituível que a graça divina ocupa neste empenho é ressaltado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
O papel da graça consiste exatamente em iluminar a inteligência, em robustecer a vontade e em temperar a sensibilidade de maneira que se voltem
para o bem. De sorte que a alma lucra incomensuravelmente com a vida sobrenatural, que a eleva acima das misérias da natureza decaída, e do próprio nível da natureza humana. É nessa força de alma cristã que está o dinamismo da Contra-revolução. O exercício ministerial dos Arautos do Evangelho clérigos tem como principal objetivo a assistência aos membros da própria Associação, de forma a preservar a pureza original do carisma sobretudo nos pontos que fazem par-
te da essência da sua espiritualidade, como a devoção à Eucaristia, a Maria e ao Papa.
Não obstante, a fundação do ramo clerical veio possibilitar também a abertura de um vasto campo de ação na atividade evangelizadora. Às formas
de apostolado laical, foi possível somar o apostolado por excelência, que é o ministério da Palavra e a administração dos Sacramentos. Desta feita, o carisma dos Arautos, posto a serviço do ministério ordenado, pôde multiplicar os frutos de conversão entre os fiéis, graças à insubstituível eficácia da graça de Deus. Outrossim, através da beleza da liturgia eximiamente observada em suas
rubricas, se tornou possível exercer uma ação mais profunda nas almas, não só levando-as a participar mais ativamente nos sagrados mistérios, mas tam-
bém abrindo-lhes, através da solenidade dos rituais, a via pulchritudinis por excelência.
Nesse sentido, vem a propósito recordar as inspiradas palavras do Papa Bento XVI, na Catedral de Notre-Dame de Paris:Sem dúvida, a beleza dos ritos nunca será bastante procurada, nem
suficientemente cuidada nem assaz elaborada, porque nada é demasiado belo para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrestres não poderão ser senão um pálido reflexo da Liturgia que se celebra na Jerusalém do Céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na terra. Possam,porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la! Compreende-se, pois, a preocupação da Santa Sé em corrigir certos desvios no desenrolar dos atos litúrgicos que prejudicam sua beleza, privando
assim a Igreja de um importante meio de ação e de santificação dos fiéis:A beleza do amor de Cristo vem cada dia ao nosso encontro, não somente
através do exemplo dos santos, mas também na sagrada liturgia, particularmente na celebração da Eucaristia onde o mistério se faz presente e ilumi-
na de sentido e beleza toda a nossa existência. É o meio extraordinário pelo qual Nosso Senhor, morto e ressuscitado, nos comunica sua vida, nos une
a seu Corpo como seus membros vivos, e assim nos torna participantes de sua beleza. [...]
A beleza da liturgia, momento essencial de experiência da fé e de encaminhamento rumo a uma fé adulta, não será reduzida à sua mera beleza for-mal. Ela é sobretudo a beleza profunda do encontro com a beleza de Deus. [...] Ela exprime a beleza da comunhão com Ele e com nossos irmãos, a beleza de uma harmonia que se traduz em gestos, em símbolos, em palavras, em imagens e melodias que tocam o coração e o espírito, e suscitam o
maravilhamento e o desejo de encontrar o Senhor ressuscitado, Ele que é a Porta da Beleza. A superficialidade, a banalidade, e inclusive a negligência de certas cele-brações litúrgicas, não somente não ajudam o crente a avançar no caminho da fé, mas sobretudo chocam àqueles que voltam às celebrações cristãs e, em particular, à Eucaristia dominical.Essencialmente voltada a Deus, ela é bela quando permite que todo o misté-
rio de amor e comunhão se manifeste. A liturgia é bela quando é ‘agradável a Deus’ e nos introduz na alegria divina.
2.1 A VIA MÍSTICA "FLASH"
Sendo o carisma dos Arautos do Evangelho, antes de tudo, uma escola de amor a Deus baseada na contemplação amorosa e enlevada da ordem do universo, surge daí a pergunta: não lhes é dado participar na contemplação infusa de uma maneira específica? Considerando o notável papel que teve o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira na formação religiosa e cultural do fundador dos Arautos do Evangelho, convém relatar um fenômeno místico ocorrido na juventude deste líder católico, durante uma Celebração Eucarística. Contou-o ele algumas vezes, com o intuito de instruir seus seguidores, mostrando-lhes como essas moções da
graça, que podem ocorrer com certa frequência, têm importante papel na vida espiritual. Elas devem ser consideradas com especial atenção, pois são momentos em que Deus Se comunica de maneira intensa e sensível à alma,
iluminando-a e fortalecendo-a mediante a contemplação infusa. O edifício da Faculdade de Direito de São Paulo fora antigamente um con-
vento franciscano, e a Igreja de São Francisco, a ele anexa, continuava aberta ao culto sob os cuidados dessa ordem religiosa. Em certa ocasião, por acaso,
o jovem Plinio, então estudante de Direito, abriu a porta de um salão da faculdade e, para surpresa sua, deparou-se com o interior do recinto sagrado. Dali via o altar-mor no qual um sacerdote celebrava a Missa, estando no momento da consagração. A cena causou viva emoção em sua alma. O conjunto escultórico do retábulo representava o Padre Eterno de braços abertos, rodeado de seus anjos, olhando para o celebrante. A cena descrevia o que, na realidade,
se passava durante a Missa, na qual é oferecido ao Pai o sacrifício do Filho. Naquela ocasião, para o jovem universitário, todo o conjunto se revestiu de
uma beleza e esplendor verdadeiramente indizíveis. Parecia — contava ele — que as imagens do altar estavam vivas e quase respiravam, e todos os fiéis recebiam graças em abundância, decorrentes da celebração da Santa Missa.
Como nesse período passava ele por uma grande provação espiritual, rezou fervorosamente pedindo forças para perseverar em sua vocação até o fim da
vida. Durante esses instantes sua alma foi inundada de unção, doçura e ale-gria, como nunca antes sentira. Foi uma das maiores consolações que recebeu no decorrer de sua longa existência, e que o ajudou a vencer a difícil provação que então o afligia. O próprio Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, alguns anos depois deste fato, definiu tal fenômeno como um acontecimento da via do flash. Eis a designação peculiar dada por ele a este tipo de graça mística, que proporciona à almaa contemplação luminosa e fulgurante, trazendo à terra uma gota do Paraíso Celeste. Quanto a seus efeitos, que vieram a ser correntes em sua própria vida espiritual, ele assim os explicitava:
O flash atua sobre a alma fazendo cessar certo desequilíbrio por onde a pessoa é mais voltada às realidades corpóreas do que às espirituais, às coi-
sas visíveis do que às invisíveis. A alma elevada assim pela graça permanece tomada por um deleite superior a qualquer outro que possa existir e tor-
na-se, por assim dizer, leve e desimpedida, propendendo a toda forma de virtude. Ao receber um flash, resplandece de forma eminente, sobretudo, a fé, dando a impressão de tornarem-se evidentes as verdades sobrenaturais.
A pessoa é como que transposta a uma ordem de coisas semelhante à exis-tente no Paraíso e no Céu.
Cada vez que se recebe um flash, ainda nas suas formas mais distintas, abre-se para a alma uma possibilidade de ver estavelmente realidades extra-
terrenas que não veria, nem amaria sem ele. De maneira que o flash é propriamente que dá à alma o motivo, a força e o termo de seu amor.Essa forma de operar da graça poderá ser mais ou menos frequente conforme as vocações e as épocas históricas. Talvez entre as vocações religiosas seja
ela mais assídua. Entre os Arautos, não é raro constatar em muitos deles os efeitos desse modo de agir do Espírito Santo, às vezes, por longos períodos. As considerações feitas por Fr. Marie-Michel Philipon, OP, a respeito da ação da graça mediante o dom de sabedoria exprimem com rigor teológico e, ao mesmo tempo, beleza de estilo, o mais profundo efeito do flash na alma:
Tudo aprecia à maneira de Deus, contemplando o universo, à luz d’Aquele que é sua Causa suprema, de um modo supradiscursivo, sobre-humano,
quase intuitivo, deiforme, participação eminente da Sabedoria incriada, chegando assim à mais alta via intelectual que é possível alcançar aqui na
terra.O homem purificado e convertido a este ponto é semelhante a Deus, os mínimos atos são inspirados pelo puro amor, operando-se uma transformação total da alma em Deus, de sorte que não forma senão um só espírito
com Ele (I Cor 6, 17). 111Quiçá a procura do Absoluto, praticada pelos Arautos com a indispen-
sável ajuda do flash e tão intimamente ligada ao seu carisma, seja um meio de atrair os fiéis para a Igreja. Esta forma de espiritualidade, que se poderia chamar de uma escola de amor a Deus, oferece-lhes condições para alçá-los
a uma íntima união com o Criador, por meio da contemplação amorosa das suas perfeições espelhadas nas criaturas.A procura do Absoluto representa, assim, no carisma dos Arautos, não
somente um pressuposto da segura e sólida formação catequética e teológica, mas também o impulso que assegura o desenvolvimento da vida sobrenatural, com a indispensável auxílio da graça. A alma, tomada por uma sede espiritual que a leva a procurar sempre o ideal mais alto, voa com grande desenvoltura pelos vastos horizontes da Revelação, como seu habitat natural. Ao considerar, por exemplo, a virgindade ímpar da Santíssima Virgem Maria, diante da qual os anjos e os homens se admiram, é-se movido a transcender até o próprio Deus Nosso Senhor, fonte de toda pureza. Esta impostação de espírito, por assim dizer, dá asas à alma, permitindo-lhe ascender incessantemente rumo ao auge dos auges, que é a própria Trindade. Nas atividades evangelizadoras dos Arautos constata-se sempre que esses dons são derramados com profusa generosidade pelo Espírito Santo. Em muitos fiéis, por exemplo, que assistem a cerimônias litúrgicas particularmente esplendorosas, observam-se fenômenos semelhantes aos acima descritos, comprovados por suas reações de maravilhamento e pela súbita e séria mudança de vida, após terem passado décadas afastados da prática religiosa. Não será isso um sinal de que muitos fiéis começam a enveredar pela via da procura do Absoluto, pela via do flash? Deus concede essas graças intensas aos que se iniciam no caminho da virtude para lhes dar a força de vencerem os obstáculos que encontrarão no peregrinar da existência terrena, como
também para degustarem com muita antecipação, as consolações que receberão na eternidade. Por isso, diz-se do Espírito Santo na sua ladainha: Dulcedo in tuo servitio incipientium.
Vê-se assim que a Via Pulchritudinis, assumida, praticada e incentivada pelos Arautos, é um dos elementos principais do carisma. Bem pode ser este o meio do qual Se sirva o Espírito Santo para tocar os corações com graças místicas, de forma a poder dizer-se que, de fato, “a beleza salvará o mundo”.“A atual crise da fé — diz o Papa Bento XVI — é sobretudo uma crise da esperança cristã”.114 Ora, quem tem Maria como Mãe, não pode de forma
alguma sentir-se desanimado. Nossa Senhora “brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor”. 115
Eis, sucintamente delineados, o carisma, o tipo humano, a espiritualida-de, a finalidade e a escola de amor a Deus característicos dos Arautos do Evangelho
2.2 OS ARAUTOS DO EVANGELHO: UMA NOVA ESCOLA DE AMOR A JESUS
Essa impostação de alma anteriormente tratada — de amor aos aspectos mais elevados e deiformes da ordem do universo—, não se limita a uma ope-
ração da razão natural, pela qual se busca entender o simbolismo das criatu-ras e nelas discernir um espelho das qualidades divinas. Indispensável é con-siderar a ação do Espírito Santo nas almas, conduzindo-as pelas mais variadas vias, para superarem as dificuldades de sua época. Nesse sentido, um dos grandes desafios da Igreja, neste terceiro milênio da Era Cristã, é a nova evangelização, ou seja, a recondução daqueles seus
filhos que deixaram de praticar os deveres religiosos e se desligaram da plena comunhão eclesial. O que pode ser feito para atrair esse tipo de católicos? Uma vez que os métodos e práticas convencionais, para eles, muito se des-
gastaram, deixando de ter pleno significado, convém ressaltar que seria mais eficaz apresentar a mesma e imutável religião sob uma perspectiva inovadora, inteligentemente adaptada. É o que oferece o Pontifício Conselho para a Cultura no já mencionado Documento Final, mediante proposta para atrair os descrentes e indiferentes, que podemos também aplicar frutuosamente aos
católicos não praticantes: Nesta perspectiva, a Via pulchritudinis se apresenta como um itinerário pri-
vilegiado para que regressem muitos deles e os que sentem grandes dificuldades para receber o ensinamento, em particular o moral, da Igreja. O exemplo do conhecido escritor francês Paul Claudel (1878-1955) bem ilustra o que se pretende afirmar. Foi durante o canto do Magnificat, na cele-
bração de Vésperas na Catedral de Notre-Dame de Paris, que ele se converteu, deslumbrado com o esplendor e a beleza da Liturgia.A descrição desse momento, por suas próprias palavras, é mais eloquente do que qualquer explicação teórica:
Foi então que se produziu o fato que domina toda a minha vida. Num instante, meu coração foi tocado e eu acreditei. Eu acreditei, com uma tal força
de adesão, com uma tal comoção de todo meu ser, com uma convicção tão firme, com uma tal certidão que não deixa lugar para nenhuma espécie de
dúvida que, depois, todos os livros, todos os raciocínios, todos os azares de uma vida agitada, não têm podido comover minha fé, nem, para dizer verdade, tocá-la. Essa iluminação súbita do entendimento acompanhada de um afervora-
mento do coração, tal como se um flash fotográfico se acendesse na alma, é.uma das formas características de atuação do Espírito Santo. Trata-se de uma experiência de Deus, sem que Ele Se faça perceptível aos sentidos externos,
que São Bernardo a denomina “conhecimento saboroso das coisas divinas”. Tratar-se-ia, por isso, de formar os membros dos Arautos, e por meio deles Todo o âmbito de seu apostolado, na escola da procura do Absoluto acima
mencionada, criando-se, assim, os pressupostos para despertar o desejo da restauração da inocência, a sede de perfeição e a aspiração à santidade, a que todos estão chamados enquanto cristãos batizados.
• CONCLUSÃO
Foram vistos, ao longo deste artigo, alguns traços essenciais do carisma de Arautos do Evangelho, o qual se pode sintetizar como sendo uma peculiar
visão simbólica da ordem do universo criado, na qual se discernem os reflexos de Deus sobretudo através da beleza, o que nos dias atuais é denominado por muitos como via pulchritudinis. De todas as criaturas, a mais perfeita e bela é, sem dúvida, a Santa Igreja Católica, Esposa mística de Jesus Cristo, pela qual os Arautos devem nutrir um amor e veneração que quase toca as raias da adoração.Essa visualização do universo e de Deus leva o Arauto do Evangelho a aspirar, em tudo, à perfeição, dando cumprimento ao mandamento de Nosso Senhor: “Sede perfeitos, como vosso Pai do Céu é perfeito” São descritos em seguida alguns desdobramentos do carisma. Certas vir-
tudes mais características dele, como a magnanimidade ou a fortaleza, e um singular modo de ver o universo, acentuando a diversidade dos elementos que o compõem, o que exige um marcante senso de hierarquia. Ressalta-se ainda a necessidade de conservar ou restaurar a inocência, condição requerida por Nosso Senhor para entrar no Reino dos Céus. A espiritualidade dos Arautos, por sua vez, é fundamentada em três devoções: à Eucaristia, a Maria e ao Papa, como já mencionado. A devoção eucarística não se limita à adoração frequente a Jesus Hóstia, mas inclui também a participação cotidiana na celebração da Santa Missa e na comunhão sacramental. A piedade mariana, seguindo a espiritualidade de São Luís Grignion de Montfort, requinta-se na consagração como escravo de amor a Jesus Cristo pelas mãos de sua Mãe, além de outras práticas marianas
como a recitação diária do Rosário completo nos seus vinte mistérios. A vinculação ao Papado, expressa formalmente no art. 7 dos E dos Arautos, manifesta-se através de uma adesão irrestrita ao Magistério da Igreja e de uma “união afetiva e efetiva” com os bispos em comunhão com a Sé Apostólica. Esta devoção ao Papado, entre os Arautos, deve ter uma intensidade tal que
seja análoga à escravidão de amor a Maria, guardadas as devidas proporções.Nesta escola de amor a Deus, tem papel essencial uma intensa ação do Espírito Santo nas almas, de forma a movê-las à prática do bem e ao afervoramento do coração, por meio dos seus dons, especialmente o de Sabedoria. É o que entre os Arautos é conhecido como a via mística do flash. Merece especial destaque na espiritualidade dos Arautos o papel desempe-
nhado pela Liturgia, sobretudo, a Eucarística.
Com o surgimento do ramo clerical a Liturgia passou a fazer parte da vida cotidiana do movimento com uma intensidade muito maior. Se, por um lado, permitiu uma participação mais assídua aos Sacramentos, as celebrações
litúrgicas realizadas nos oratórios privados e nas igrejas confiadas aos Arautos fizeram com que a vida comunitária se centrasse mais efetivamente na Liturgia, com o evidente benefício espiritual daí decorrente. Mas, o que foi uma vantagem, do ponto de vista sobrenatural, intramuros, tornou-se ao mesmo tempo um eficaz meio de atingir a finalidade laical do movimento, ou seja, a consecratio mundi. Verificou-se, pois, que a Liturgia, celebrada com o esplendor e as características próprias ao carisma, é um excelente meio de influenciar as várias categorias de membros, que vivem no mundo, sobretu do os cooperadores e solidários, confirmando neles o carisma. O que redunda numa atuação mais profunda e duradoura na esfera temporal. Também os vínculos entre os membros se viram reforçados pela participação nos sacramentos, sobretudo pela comunhão eucarística, aumentando assim a força de coesão do carisma. Conclui-se que a finalidade dos Arautos — desde os primeiros momen-
tos, caracteristicamente laical —, com a fundação do ramo clerical e a inserção da Liturgia no cerne da vida do movimento, não só se manteve inaltera-
da como houve um reforço de valor incalculável, para atingi-la. Com efeito, se nos Sacramentos recebe-se a graça, na Eucaristia é o próprio Autor da graça que Se faz presente.A finalidade do movimento poderia ser sintetizada no pedido que a Igreja faz na oração que o Senhor nos ensinou, há dois mil anos: “Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no Céu”.

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